A crise regulatória do Capitalismo de Dados

Os sinais são claros para quem sabe que a tecnologia não é uma força autônoma na sociedade e sim uma manifestação de escolhas políticas, econômicas e culturais: estamos entrando em uma nova fase da economia de dados, na qual a batalha ao redor de questões regulatórias vai impactar na sobrevivência de alguns modelos de negócio e a falência de outros, notadamente na publicidade on-line e no e-commerce.

Não bastasse toda a questão da relação entre o Facebook e Cambridge Analytica (tema examinado em diversas reportagens no Meio & Mensagem) e a entrada em vigor da lei de proteção de dados pessoais da Comunidade Europeia, recentemente tivemos os ataques de Donald Trump contra a Amazon, o governo chinês obrigando o Airbnb a entregar informações sobre seus usuários e movimentos de mercado que vão levantar sérias questões sobre o uso de dados pessoais no setor de seguros e saúde (a aliança da Amazon, Berkshire Hathaway e JP Morgan de um lado e a possível aquisição de uma das maiores empresas de seguro saúde dos Estados Unidos pela Walmart).

Para avaliar as probabilidades dos possíveis cenários destas tendências, não basta ficar repetindo que “dados são o novo petróleo”. Esse é um “raciocínio” com profundidade suficiente para o coffee-break dos eventos de mercado. Muito mais revelador, como metáfora, é a ideia de que “dados são os novos preços”, desenvolvida no excelente Reinventing Capitalism in the Age of Big Data (U$ 16,99 na Amazon). Da mesma forma que o preço é a maneira de conectar oferta e demanda e estruturar as relações entre produtores e consumidores (ou seja, organizar o mercado), as plataformas de captura e análise de dados podem se tornar estruturas que vão aumentar a eficiência desta conexão, tornando o preço menos relevante — pense, por exemplo, no caso dos produtos personalizados pelos quais estamos dispostos a pagar mais caro ou nas tecnologias de personalização que permitiram derrubar o custo de se comunicar com os consumidores. A explosão de aparelhos conectados (a “Internet das coisas”) e a capacidade de identificar padrões nestas conexões (a partir da Inteligência Artificial), vão permitir que as organizações que dominam estas práticas aniquilem setores inteiros do mercado — é como se o que aconteceu com os veículos da mídia se espalhasse por todos os setores da economia.

Mas a História ensina que, à medida que um grupo reduzido de empresas domina parcelas cada vez maiores dos mercados, governos e consumidores reagem para estabelecer algum equilíbrio nas relações de compra e venda. Por isso, podemos esperar um aumento do controle sobre a maneira como as empresas obtém e utilizam os dados pessoais. Na Alemanha, por exemplo, o governo obrigou as seguradoras de grande porte e empresas de coleta de dados a dividirem suas informações com empresas menores, para evitar o oligopólio.

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