Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124
Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124

Ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado apoiado por Flávio Bolsonaro teve a prisão em flagrante convertida em preventiva após a PF encontrar um fuzil calibre .556 em seu carro durante a Operação Unha e Carne.
A Justiça do Rio de Janeiro manteve nesta quarta-feira (8) a prisão de Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil, após audiência de custódia que converteu o flagrante em prisão preventiva.
Canella foi detido na véspera durante a 6ª fase da Operação Unha e Carne, quando agentes da Polícia Federal encontraram um fuzil calibre .556, de uso restrito, no interior de seu veículo. O político, que contava com o apoio de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para disputar o Senado, será transferido para o Presídio Pedrolino Werling de Oliveira, o Bangu 8, no Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste do Rio.
A decisão judicial desta quarta encerrou qualquer expectativa de soltura imediata. Após a audiência de custódia, a Justiça não apenas ratificou a prisão em flagrante como a converteu em preventiva, o que significa que Canella permanecerá detido sem prazo determinado enquanto a investigação avançar. Ele foi transferido do Presídio José Frederico Marques, no bairro de Benfica, para o Presídio Pedrolino Werling de Oliveira, o Bangu 8, unidade do Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste carioca.
A prisão ocorreu em flagrante por posse ilegal de arma de fogo de uso restrito. Durante o cumprimento de mandado judicial na terça-feira (7), agentes da Polícia Federal localizaram um fuzil calibre .556 no interior do veículo de Canella. Na residência do ex-prefeito, em condomínio de luxo na Barra da Tijuca, foram apreendidos ainda outros revólveres, pistola, munições e relógios de luxo.
A defesa de Canella não quis se manifestar após a decisão. O Bangu 8 já abrigou outros presos de repercussão: o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil) ficou custodiado na unidade antes de ser transferido para penitenciária federal em Brasília.
A Operação Unha e Carne investiga uma organização criminosa suspeita de usar uma rede de postos de combustíveis na Grande Rio para lavar dinheiro. Segundo relatório de inteligência financeira do Coaf encaminhado à Polícia Federal, o grupo movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.
A 6ª fase da operação, deflagrada na terça-feira (7), cumpriu 19 mandados de busca e apreensão nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende, além da capital fluminense. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de empresas ligadas aos investigados.
Federal foi direta: “um dos alvos da operação, investigado como braço político do grupo, foi preso em flagrante pelo crime de possuir ou portar arma de fogo de calibre restrito, após os policiais encontrarem um fuzil .556 no interior de seu veículo.”
Além de Canella, o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do Rio, também figura entre os alvos da investigação. Um policial militar identificado como responsável pela cautela do fuzil encontrado com Canella está sendo investigado pela Corregedoria da PM: trata-se do sargento Alexandre Paixão da Silva Júnior, cedido ao Detran desde outubro de 2025, que segundo apuração fazia a segurança do ex-prefeito.
Márcio Canella renunciou à Prefeitura de Belford Roxo em abril de 2026 para concorrer ao Senado, com apoio declarado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do deputado estadual Douglas Ruas. A federação União Brasil-PP o apontava como o nome da chapa com aval do senador e presidenciável. A prisão transformou esse arranjo em problema político imediato: Canella se tornou o segundo nome da chapa atingido por investigação da Polícia Federal em menos de dois meses.
Nos bastidores, interlocutores de Flávio Bolsonaro avaliam que a permanência de Canella na disputa é politicamente insustentável. A avaliação circulante entre dirigentes do PL é que a federação deve recuar da indicação e buscar um substituto, já que insistir no nome significaria acrescentar mais um desgaste a uma chapa que já passou por sucessivas mudanças. O impacto não é apenas eleitoral.
A Operação Unha e Carne, segundo apuração da Revista Fórum, expõe elos entre o bolsonarismo fluminense, milícias e o Comando Vermelho, tendo atingido em fases anteriores outros aliados de Flávio Bolsonaro, como Rodrigo Bacellar e o empresário TH Joias. O padrão que emerge das investigações aponta para uma rede de sustentação política construída sobre relações com o crime organizado, algo que a cobertura convencional tem tratado como episódios isolados, mas que a sequência de alvos da operação torna difícil de dissociar.
Canella nega ser o proprietário do fuzil. Sua versão, apresentada em depoimento à Polícia Federal, é que a arma era utilizada por um policial militar integrante de sua equipe de segurança. A PF, no entanto, registrou que o ex-prefeito não apresentou provas que comprovassem essa versão. O calibre da arma apreendida, o .556, é classificado como de uso restrito no Brasil, vedado ao cidadão comum e associado a armamento de guerra.
A nova fase da Operação Unha e Carne acrescenta um elemento de alto impacto político ao caso: o fuzil .556 encontrado no carro do pré-candidato de Flávio Bolsonaro é do mesmo calibre que aparece em apreensões recentes contra áreas e grupos ligados ao Comando Vermelho.
A própria Revista Fórum ressalva que não há, com os dados disponíveis, elemento que vincule diretamente a arma apreendida com Canella à facção. O paralelo é factual e restrito ao calibre. Ainda assim, a presença de um fuzil desse tipo no veículo de um pré-candidato ao Senado, no meio de uma investigação sobre lavagem de dinheiro bilionária com participação de agentes públicos, é um dado que não se explica por coincidência.
A Operação Unha e Carne se insere no contexto da ADPF 635/RJ, conhecida como ADPF das Favelas, que determinou à Polícia Federal investigar as relações de agentes públicos com facções criminosas no Rio de Janeiro. É dentro dessa moldura que o fuzil no carro de Canella ganha seu peso mais preciso: não como prova isolada, mas como mais um dado numa investigação que já movimenta R$ 7,6 bilhões e alcança o centro da articulação eleitoral bolsonarista no estado.
Average Rating